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A tensão econômica causada pela Covid-19 entre China e Austrália

Viola Show 17/06/2020 09h30

A tensão econômica causada pela Covid-19 entre China e Austrália

Primeiro, foram as tarifas sobre a cevada australiana, depois a carne de seus matadouros e agora o veto está chegando às universidades.

A pandemia de coronavírus trouxe à tona uma disputa latente entre a China e a Austrália que ameaça um fluxo de dinheiro bilionário.

"A China está usando o comércio para posicionar sua agenda política e mostrar seu descontentamento com a Austrália, mas há um forte elemento nacionalista no discurso da Austrália, que não quer demonstrar fraqueza", diz a jornalista australiana Rebecca Henschke, editora do Serviço Asiático da BBC.

"Há muita preocupação sobre a direção que esta disputa está tomando e o aumento das tensões."

O último episódio dessa tensão são as recentes declarações do primeiro-ministro australiano, Scott Morisson: "Nunca nos deixaremos intimidar por ameaças ou negociaremos nossos valores em resposta à coerção, venha de quem vier".

Ele se referia à China, que lançou uma série de medidas de retaliação econômica por certas atitudes australianas, que considerou "discriminatórias", no contexto da pandemia.

"Tanto a China quanto a Austrália agiram de maneira pouco racional em sua diplomacia e se expuseram muito", disse Kerry Brown, especialista em política chinesa do King's College e ex-diretor do Centro de Estudos da China da Universidade de Sydney, na Austrália, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

"Você não pode falar de uma guerra comercial, embora obviamente muitas tensões diplomáticas estejam ocorrendo. Se houver um 'divórcio', a economia ditará como isso será resolvido", diz o analista.À beira da recessão

Para a Austrália, é o pior momento possível para um confronto econômico com a China: exatamente quando se prepara para a reabertura após os confinamentos que colocaram o país à beira de sua primeira recessão em quase 30 anos.

"A Austrália evitou a recessão até agora em grande parte graças ao seu relacionamento com a China, que é um ator fundamental em sua economia. Mas se a Austrália realmente entrar em recessão, ela agirá de forma mais pragmática", diz Brown.

"O país depende da China, mas também dos Estados Unidos, seu parceiro na área de segurança, que ao mesmo tempo está em desacordo com a China. É um equilíbrio quase impossível."

A chegada da pandemia levou o governo australiano a impor uma série de restrições e fechar comércio e escritórios para impedir a propagação do novo coronavírus.

Ao mesmo tempo em que as limitações foram impostas, foram implementados pacotes de ajuda econômica e estímulo equivalentes a 13,3% do PIB.

Com pouco mais de 7.300 casos e 102 mortes, segundo dados da Universidade Johns Hopkins até terça-feira (16), as autoridades começaram a reabrir a atividade econômica com vistas à normalização em julho.

Já a China sofreu uma queda nos relatos de transmissão local de novos casos, embora tenha continuado mantendo registros de casos "importados", a maioria deles cidadãos que retornam de áreas afetadas.

Até segunda-feira (15), o país havia registrado mais de 84.338 casos e 4.638 mortes.

Como a disputa começou?

Um gatilho para a escalada atual pode ser encontrado no fato de que a Austrália solicitou a abertura de uma investigação internacional independente sobre as origens do novo coronavírus, algo que os Estados Unidos também haviam solicitado.

"Centenas de milhares de mortes, milhões perderam seus empregos e bilhões viram suas vidas afetadas. O mínimo que o mundo pode esperar é uma investigação. E a Austrália não está sozinha (ao pedir essa investigação)", disse o ministro do Comércio, Turismo e Investimento da Austrália, Simon Birmingham, em maio.

Essa atitude irritou Pequim, que respondeu alguns dias depois barrando parcialmente a importação de carne bovina da Austrália. Em seguida, impôs tarifas de 80% à cevada australiana, dizendo que o produto não cumpria regulamentos comerciais.

Nesta semana, foi a vez das universidades.

Mas o veto não é apenas para estudantes. Na semana passada, a China aconselhou todos os seus cidadãos a evitarem viajar para a Austrália, alertando que havia um "aumento significativo" em ataques racistas contra asiáticos.

Educação e turismo são, respectivamente, o terceiro e quarto maiores mercados para estrangeiros da Austrália e contribuem significativamente para sua economia.

A China fornece à Austrália um grande número de turistas e estudantes, que cresceu ao longo dos anos. Desde 2010, é o seu maior parceiro de negócios.

"A China é um ator muito importante para a economia australiana e um de seus maiores importadores de carvão e carne bovina. Também é fundamental no setor de turismo e na educação, pois muitos chineses estudam na Austrália", explica Henschke.

Os estudantes chineses representaram 28% dos mais de 750 mil estudantes estrangeiros na Austrália no ano passado, segundo estatísticas do governo.

As universidades australianas tiveram dificuldades financeiras durante a pandemia, pois o fechamento das fronteiras atrapalhou os estudantes de fora. Várias instituições do país declararam estar enfrentando uma crise financeira.

Eles podem perder US$ 8,3 bilhões nos próximos dois anos, se os estudantes chineses decidirem não estudar no país, disse Salvatore Babones, professor associado da Universidade de Sydney, à Australian Financial Review.

"A China é o país mais importante para o comércio na Austrália", diz Brown. "E se estudantes e turistas chineses pararem de ir para a Austrália, será um desastre para sua economia."'Incidentes discriminatórios'

Essa reação também é uma resposta a restrições impostas pelo governo australiano nos estágios iniciais da pandemia de coronavírus, impedindo que milhares de estudantes chineses retornassem à Austrália.

Mas as autoridades australianas negam que exista discriminação. Afirmam que o país é um dos mais seguros para estudantes estrangeiros e que é uma sociedade "bem-sucedida" e "multicultural" que fornece "educação de alto nível".

No entanto, os centros acadêmicos australianos são acusados ​​há muito tempo por pesquisadores de não prestarem maior apoio aos estudantes de fora.

Uma investigação realizada em 2018 pela ABC News, a televisão pública da Austrália, observou que "um grande número de estudantes estrangeiros diz ter dificuldade em se comunicar efetivamente em inglês, participar da aula ou concluir tarefas adequadamente".

"Acadêmicos e especialistas em educação e emprego disseram à ABC que os padrões de inglês geralmente são baixos ou inexistentes e que os alunos enfrentam situações estressantes que os levam a trapacear [nas provas]", diz o relatório.

Várias universidades negaram essas acusações.

"Muitas universidades fizeram declarações fortes, garantindo que suas portas estão abertas para estudantes da China e de outras partes da Ásia", diz Henschke. "Mas também é fato que estão cientes de sua enorme dependência de estudantes estrangeiros, que representam grande parte de sua renda."

'Um jogo político'

Na quarta-feira, o Grupo dos Oito, uma coalizão das principais universidades da Austrália, chamou o aviso da China de "decepcionante" e "injustificado".

O grupo também disse que havia solicitado à Embaixada chinesa na Austrália exemplos de racismo, que não foram fornecidos a eles.

"É preocupante que mais uma vez a educação internacional, e particularmente a China, seja o peão de um jogo político pelo qual não somos responsáveis", disse o diretor executivo da entidade, Vicki Thomson.