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Uma história de perseverança: locutor aguardou dez anos para receber seu primeiro cachê
Uma história de perseverança: locutor aguardou dez anos para receber seu primeiro cachê
Por: Eugenio Jose - Ribeirão Preto - SP
13/01/2026
Conheci o locutor Everton de Castro já com a carreira em andamento, na Festa do Peão de Barretos, nas finais da Liga Nacional de Rodeio, quando tivemos a oportunidade de produzir uma matéria para o meu canal no YouTube, por volta de 2018 ou 2019. O tempo passou, os caminhos seguiram e nos reencontramos em duas ocasiões: em Laranja da Terra, no ano de 2023, e depois em São Mateus, em setembro do ano passado, ambas cidades no Espírito Santo, durante eventos da TR Rodeio.
Sempre conversamos sobre sua trajetória, marcada por muito trabalho, persistência e paixão pela locução. Everton construiu sua carreira principalmente nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e, de forma muito especial, no Espírito Santo — estado pelo qual ele tem um carinho muito grande.
E dentro do meu propósito particular de produzir muitas histórias em 2026, nada mais especial que começar com a história de perseverança de Everton de Castro.
Eugênio José
A PERSISTEÊNCIA QUE DEU CERTO
Hoje, aos 39 anos, prestes a completar 40 no próximo ano, Everton de Castro olha para trás com a certeza de quem venceu uma longa caminhada. Em 2026, ele completa 25 anos de rodeio — um marco especial, o qual ele já planeja não deixar passar em branco.
Atualmente, Everton de Castro desenvolve seu trabalho de locução quase 100% em três estados: Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.
Sua trajetória começou cedo. Aos 15 anos de idade, em 2001, ele deu os primeiros passos rumo ao sonho de ser locutor. Com o cunhado competidor de montarias em touros, Everton sempre o acompanhava. Verdade seja dita, o sonho inicial era também ser um competidor em touros. Chegou a tentar algumas vezes, mas percebeu que aquele não seria o seu caminho.
EVERTON NARRANDO A FINAL DO CIRTUTO TR 2025
O ponto de partida para a locução aconteceu no ano 2000, quando um rodeio chegou à sua cidade natal com a Companhia Gilberto Mega, de Barretos. Narrando este evento estava Felipe Miguel. Foi ali que, com coragem e humildade, ele ousou e pediu uma oportunidade para narrar. Felipe autorizou que ele narrasse três montarias. Bastou isso.

“A galera gostou, me incentivou, falou que eu tinha futuro. Ali eu decidi entrar nessa luta.”
A decisão, no entanto, trouxe anos de sacrifício. Foram dez anos correndo atrás do sonho, viajando, trabalhando, narrando rodeios sem receber cachê. O primeiro pagamento de verdade só viria uma década depois.
Durante esse período, a vontade de desistir até apareceu, mas nunca foi mais forte que a paixão. De origem simples, criado em comunidade, ele abandonou os estudos acreditando que o rodeio lhe daria um futuro rápido. A realidade foi outra.
Para se sustentar, sempre trabalhou como gesseiro, com drywall e rebaixamento de gesso. Foi esse trabalho que garantiu o sustento enquanto o sonho da locução ainda não dava retorno financeiro.
“O rodeio sempre foi uma paixão muito grande. Mesmo com dificuldade, mesmo demorando, desistir nunca passou pela minha cabeça.”
A virada de chave aconteceu em 2010, quando foi para o Espírito Santo narrar um rodeio na cidade de Atílio Vivacqua/ES. Na época, os funcionários da companhia Piaçu Rodeio, que realizava muitos rodeios no estado, o viram narrando e enxergaram nele um potencial.
O Espírito Santo o acolheu de vez. Ainda em 2010, recebeu o diploma de Locutor Revelação pela Associação Sul Capixaba de Rodeios (ASCAR). Em 2011, veio um reconhecimento ainda maior: foi eleito, por votação popular com mais de 60 mil votos pela internet, o Melhor Locutor do Espírito Santo.
“O Piaçu me abraçou, me deu oportunidade, e dali eu deslanchei”, lembra. “Mas foi em Minas Gerais meu primeiro cachê condizente com um locutor de rodeios, na cidade de Betim.”

A partir daí, sua carreira se consolidou principalmente no eixo Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Embora também atue em São Paulo, foi nesses estados que construiu sua base sólida. Uma curiosidade é que 80% de sua agenda está centralizada no Espírito Santo, que se tornou sua grande casa profissional.
Quando fala de referências, ele é direto.
“A maior inspiração sempre foi Marcelo Almeida, locutor regional que narrava praticamente todos os rodeios da sua região na época. Um profissional completo, que marcou sua formação”, lembra.
Além dele, sempre observou e aprendeu com grandes nomes da locução, como Piracicabano, buscando absorver detalhes, estilo e identidade, sem nunca perder sua essência.
Hoje, com a carreira consolidada, ainda com muitos espaços a conquistar, ele define com simplicidade o que significa ser locutor de rodeio:
“Ser locutor de rodeio é tudo para mim. É o sonho da minha vida realizado. Eu sempre sonhei com isso.”
Entre as maiores conquistas pessoais, destaca com orgulho suas quatro participações na Festa do Peão de Barretos, algo que, para ele, representa a realização máxima.
“Eu realizei os grandes sonhos da minha vida sendo locutor de rodeio.”

Hoje, ele se sente ainda mais realizado. Não apenas por ter alcançado o sonho, mas porque vive exclusivamente da locução.
“Hoje eu vivo do rodeio. Tenho um cachê que me possibilita viver do rodeio. Então eu realizei o meu sonho, que virou uma realidade. Não existe coisa melhor do que isso: fazer o que ama e conseguir sobreviver daquilo que você mais gosta.”
“Sempre rola. Eu fico elétrico. A adrenalina sobe muito”, disse sobre os minutos antes de entrar na arena. “É uma adrenalina gostosa. Isso eu não perdi até hoje. Dá aquele frio na barriga e eu começo a rodar igual louco. É sinal de que está tudo vivo ainda.”
Com o passar dos anos, a preparação também mudou. Hoje, ele faz atividade física, frequenta a academia e entende que isso faz parte da profissão.
“Eu preciso disso. Estou tentando melhorar meu corpo, até para ter mais presença. Hoje a imagem conta muito. Então estou investindo nisso.”
Quando o assunto é ritual, superstição ou mania, ele é direto: não tem nada ensaiado. O que existe é cuidado básico e emoção pura.
“Tento dormir bem para preservar a voz. Fora isso, eu fujo totalmente de coisa decorada. Eu não consigo trabalhar decorando texto.”
Para ele, a locução precisa nascer no instante.
“O contratante só precisa me dizer o que ele quer: se é um rodeio mais técnico, mais tradicional, se é para pôr mais adrenalina, se é para homenagear alguém. Me fala o que você quer. O resto tem que sair no automático. Eu preciso ficar livre para fazer o que o meu coração manda. Eu só funciono assim.”
Quando questionado sobre momentos marcantes da carreira, ele não cita apenas um. Mas um deles surge com brilho especial nos olhos: Barretos 2018.
“Foi a minha melhor atuação em Barretos, no Interestadual de 2018.”

Na época, Antônio Carlos, da ACF do Brasil, era o técnico da seleção de Minas Gerais. Na semifinal, o time entrou em cena com atuações históricas. Todos os competidores pararam.
“Teve duas notas acima de 90 e uma de 89. O time de Minas sentiu a adrenalina que eu joguei para cima.”
Foram montarias inesquecíveis: Chaster com 90 pontos, João Marcelo com 90, Joander com 89. A arena vibrou como poucas vezes se viu.
“Foi um momento mágico. Barretos lotado, de quinta a domingo. O Barretão cheio. Conseguir transmitir aquilo ali e ver a galera vindo junto… é loucura. É doideira.”
Aquele momento mudou rumos, tanto que, no ano seguinte, em 2019, Antônio Carlos o levou para narrar em Congonhal/MG. E ali veio outro capítulo inesquecível.
“Foi um dos melhores rodeios que eu já narrei na minha vida.”
Na semifinal, o peão da casa, João Paulo, entrou na arena. A montaria foi tão intensa que a arquibancada literalmente veio abaixo.
“Foi muito emocionante.”
Ao final do evento, ainda dentro da arena, veio a surpresa. Antônio Carlos fez um agradecimento público, quase uma homenagem.
“Eu acabei chorando dentro da arena, na despedida. Pelas palavras que ele me falou. Ele é um cara que conhece, vive e entende.”
Congonhal ficou marcado para sempre.
“Congonhal 2019, para mim, foi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira.”
“Se eu te disser que eu não quero narrar os grandes e tradicionais do Brasil, eu estaria mentindo”, finaliza Everton de Castro. “Mas, se eu precisasse parar hoje, eu já seria um cara realizado. Eu tenho um cachê satisfatório, vivo do rodeio, estou muito feliz com tudo que conquistei. O que acontecer de agora em diante posso lhe garantir que será um acréscimo, pois eu cheguei onde queria.”
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